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A arte de Caravaggio

Já faz algum tempo que fui visitar uma exposição itinerante, aqui na capital do Brasil, de algumas telas do pintor renascentista Caravaggio. Poucas telas, mas de uma riquíssima expressão que impressiona até quem não é expert em arte, como eu, mas que aprecia o sentido dos traços, cores, sombras e formas.

Imaginei ele criando alguns tons daquelas telas com sabor de um gozo paradisíaco, já que em sua época o artista é que criava os tons de suas cores, ao construir ele mesmo suas tintas, um trabalho alquímico, antes de ser tornar artístico.

Abordando temas religiosos, percebi que seria preciso centenas de versos para dizer tudo que ele disse pintando. Cada tela era uma fonte inesgotável de poesia. Pintando, ele era capaz de reescrever facilmente os cânticos dos cânticos…

Quem observa bem seus temas, e tem uma breve noção das histórias bíblicas, consegue ouvir um concerto em cada obra, uma orquestra oscilando notas delicadas e mais intensas, percebe cada ser saindo vivo do pincel, como se o próprio Deus (e, se Deus existe, ele deve amar a beleza) tivesse soprado o esboço em seu ouvido antes de alcançar a tela.

Todos temos uma biblioteca dentro de nós onde está guardado tudo o que nos tornamos com o que lemos, vivemos e sentimos. Confesso que naquela ocasião, mesmo não podendo demorar muito em cada tela, reli muitos livros adormecidos dentro de mim.

Caravaggio conseguia esse efeito de admiração que senti, por aproximar o sacro do profano, já que usava como modelos, mendigos, marinheiros e prostitutas. Para tanto, era frequentador assíduo de pulgueiros e tabernas, não se preocupando em escandalizar a igreja com seu comportamento livre de pintar ícones bíblicos, olhando pessoas consideradas decadentes, talvez inspirado no filho de Deus que comia com pecadores, prostitutas e ladrões.

Nas expressões dos rostos, Caravaggio conjugou como poucos todos os tempos do verbo ser. Ele, enquanto pintor, tornava-se a imagem e semelhança do próprio criador. Os rostos em suas telas parecem ouvir o olhar que pousa sobre eles e retribuem também com penetrante visão, dizendo coisas que têm a exata medida da nossa imaginação.

Consta que ele era relativamente rápido em terminar uma obra, dado o ambiente em que eram pintadas. Criar vivendo, esse parecia ser seu lema. Um exemplo para nós, que não somos pintores, aprendermos sobre a efemeridade da vida, que não exige esboços tão demorados sejam de amizades ou paixões, mas obras vividas com as cores dos instantes que nos tocam.

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Atualizado em: Sáb 22 Out 2016

Comentários  

#1 Alecryna 17-04-2016 03:17
Tens razão, uma pintura pode falar mais que mil livros.
Talvez as palavras sejam miseráveis para informar o que pensamos e realmente queremos dizer ao mundo.
Gostei muito de seu artigo.

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