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Parábola

Sonhei que estava num lugar muito alto. Lá de cima eu podia avistar o meu país como um grande panorama. Apanhei
meu binóculo na mochila, ajustei-o pacientemente rolando devagarinho o registro.
Vi, lá embaixo,  um tebanho imenso. Muitas cabeças de gado. Havia gado preto, branco, malhado,  marrom, acinzentado...
Apurando minha observação percebi que havia uma enorme cerca dividindo o gado em duas partes, dois rebanhos.
Fui aumentando meu campo de visão para a direita e para a esquerda  e percebi que os dois rebanhos se alimentavam de um pasto seco, sem vida.
Havia enormes crateras de erosão e imensas áreas de queimada recente, algumas ainda produziam fumaça. Alguns animais tentavam apagar com patadas o fogo resistente, numa tarefa inócua...Em uma das direções avistei o mar. Ali, havia gado atolado numa substância negra esquisita. Agonizavam.
Atenta aos detalhes, vi muitos animais magros, esqueléticos, ossos à vista...Alguns outros sofriam de obesidade mórbida e mal conseguiam se mover.
Outros, chafurdavam num antigo riacho onde agora, só se via lama...Então direcionei meu binóculo para a cerca que separava os dois rebanhos.
Havia,  de um lado e do outro, muitos animais que  bufavam  encarando-se e, como touros na arena, davam patadas enraivecidas no capim seco
em visível  provocação mútua, enquanto o resto ruminava e ruminava sua raiva porque capim já não havia mais...Lembrei-me de que tinha, na mochila, um binóculo mais potente. E então,  aquele instrumento me permitiu ver  o que não vira antes. Aqueles dois rebanhos tinham donos. Regulei minhas lentes focando o lombo de um animal e vi uma mancha amarela como uma inflamação e no centro da mancha a letra B. Outro animal, no lado esquerdo da cerca trazia uma mancha vermelho-sangue, havia sido marcado com a letra L. Então, de repente, sem que eu percebesse onde começou, rompeu-se a cerca,  era o estouro da boiada. O gado avançou enraivecido, um lado contra o outro, pisoteando bezerrinhos, animais fracos, vacas prenhes, doentes. A vastidão do pasto se cobriu de sangue. No meio do caos,  ainda pude ver os dois pecuaristas, à salvo, sobre uma colina. Eles sorriam e aplaudiam. Cumprimentaram-se e começaram a discutir, animadamente, os planos da próxima campanha.
Acordei do pesadelo com a algazarra das maritacas sob minha janela. Que bom que ainda existiam maritacas para nos despertar...
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Atualizado em: Qui 21 Nov 2019

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